"Somos anjos duma asa só e só podemos voar quando nos abraçamos uns aos outros."

Pensamento de Fernando Pessoa deixado para todos os que estão na lista abaixo e àqueles que passam sem deixar rasto. Seguimos juntos!

OS AMIGOS

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

SAUDADES DE DEUS

Achámos a sua falta. Ela é presença assídua na sala onde costumamos reunir às terças-feiras,  onde nos esperam com um olhar ansioso e atento focado na porta de entrada. Com eles “navegamos” ao sabor da corrente de “marés” imprevisíveis que trazem ondas de amor partilhadas em jeito de canções que atravessam todos os géneros, e orações espontâneas orientadas pela brisa do coração.
Procuramo-la no quarto dela, estava sozinha, deitada na cama, às escuras. Ao ver-nos o seu olhar ganhou vida, as suas mãos criaram gestos entrelaçados nas palavras rápidas como se receasse que o tempo disponibilizado por nós para ela, se esgotasse...
Fragmentos de vida rolaram num discurso fluido. Recuando no tempo numa travessia lúcida visitou  todo um percurso vivido que continua ancorado no presente da sua memória. Os seus traços, apesar de esbatidos, denunciam a beleza de outrora e a pose é a de quem se esforça para manter alguma dignidade.
Falou-nos e tratou-nos com um carinho que nos derrubou emocionalmente e quando frisou a falta sentida por não poder comparecer na salinha, expressou-se com esta frase: "Tenho saudades de estar convosco, de vos ouvir cantar e escutar o que vocês dizem. Tenho saudades de Deus."

Ao ouvi-la cruzámos um olhar, (eu e a minha irmã) eu baixei o meu com receio de que eles traíssem o embate das suas palavras...
Quanta carência espiritual, quanta necessidade de escutar a Palavra, quanta privação forçada do bem essencial da vida: O amor.
Despojados de tudo, dependentes para tudo, sofrem de solidão acompanhada, carentes de muito mais do que os simples e autómatos gestos de comer, dormir e se manter vivos.
Medito...
Nesta etapa da vida o que é que realmente tem valor? O que é que sobrou do mealheiro da vida? Os bens? Esses – se os tinham – ficaram para lá das portas que os isolam do mundo, junto com todos os que os esqueceram. Ficaram as sobras. Restos que se resumem a um fotografia amarelecida pelos anos e "pequenos" objectos que carregam num velho saco de plástico ou numa malinha de mão tão gasta como o desgaste provocado pelos tombos e rombos da vida; mas dos quais não se separam porque eles são o único elo de ligação capaz de os mantém presos à ilusão de posse e independência.  
Mas a chama reacende quando o pavio de Luz atravessa as artérias ressequidas pelo cansaço e pela solidão, e renasce de esperança e vida ao desentorpecer o coração.


Dulce Gomes

(Esta reflexão é o "produto" final dum sentimento da minha irmã Isabel que se cruzou com o meu. Querida mana, obrigada por tudo)

Dulce Gomes

2 comentários :

  1. Há momentos em sentimos o sofrimento alheio, de tal forma... que nos fere. Que esses momentos sejam de crescimento.

    Beijinho fraterno

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  2. É triste ver que alguém sofre com a solidão.Sofrem os velhotes abandonados às suas memórias,fazendo delas a sua âncora até chegar a hora da partida.Sofrem os doentes,uns que não sabem alinhar nem sequer o mais pequeno pensamento,outros amarrados a uma cama,vendo a vida a sorrir e a saltar para toda a gente,outros aprisionados nas quatro paredes do quarto,esperando outro dia,igual a tantos outros,monótonos.
    Dulce,emocionei-me ao ler esta história.Embora eu seja bem mais nova do que a senhora,revi-me nela,,,Também uma ternura grande me invadiu ao ver como descreveste essa situação.Bravo amiga!
    Não podemos nem devemos permitir que as pessoas sofram .Há que ser vigilante,e adivinhar mesmo, quando alguém precisa...
    Tens feito um excelente trabalho!Continua!!!
    Abraço grande,miguita :-)

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As palavras de amizade e conforto podem ser curtas e sucintas, mas o seu eco é infindável.
Madre Teresa de Calcutá