
Muitas vezes ouço as perguntas:
-“Porque vais a pé até Fátima? Fizeste alguma promessa?” ou “O que te leva a ir todos os anos?” Eu digo-lhes simplesmente: Vou por fé! “E Para ter fé, é preciso caminhar tantos quilómetros?”. Não! É um facto. A fé não se mede nas passadas que dou nem nos quilómetros percorridos, tampouco só quem vai a pé a Fátima tem fé, mas para mim é uma necessidade. Ao encetar esta caminhada, abro uma brecha no meu quotidiano, rompo com a minha rotina diária e ao fazê-lo abro um espaço de reflexão, onde me procuro, interpelo, abro-me aos outros, sou e aceito ser um ombro amigo, tento aperfeiçoar-me, escutar-me e escutar Deus. Será convincente esta resposta? Será com certeza para alguns…mas ainda me deparo com aqueles que não tendo coragem de me contestar, nem pronunciam uma palavra, mas consigo ler no seu olhar, sentimentos de reprovação, de escárnio e até de superioridade, pensam ver mais além do que eu, por não se submeterem a tamanho sacrifício, talvez até achem que é sinal de ignorância, ou fraqueza… de certa forma, no início, não foram poucas a vezes, em que, incomodada optei por calar. Nunca é fácil expor perante os outros os meus mais profundos sentimentos, aqueles que são a mola que me impulsiona a sair da minha casa, do meu conforto, deixando para trás tudo, mas principalmente a minha família.
Então, umas vezes sem argumentos, outras porque preferia não ir ao fundo da questão para evitar um julgamento, defendia-me com uma mera e vaga frase: São opções de vida! É verdade! É uma opção. Mas quando olho atrás, fico surpreendida muitas vezes pela convicção que sai do que digo e do que escrevo. As minhas respostas deixaram de ser evasivas e sem conclusão.
Hoje, sei responder de forma convicta às perguntas acutilantes e sarcásticas com que me deparo, porque estou firme na minha fé e nos meus sentimentos. Hoje digo-lhes que amar e seguir Jesus pela mão da Virgem Mãe, foi e é, a experiência que mais me enriquece como ser humano. Digo-lhes que, só quem vai, poderá entender a união, a comunhão, a entreajuda, o poder da oração, a partilha, o esforço de quem nos organiza “carregando” um grupo enorme à sua responsabilidade. Mas acima de tudo o que lhes digo é que, é duma enorme grandeza o que vivo em dez dias de caminhada, em que me despojo de tudo o que é supérfluo e me limito ao essencial. Digo-lhes como me sinto confortável dormindo no chão, como não acho falta das horas de sono, como não me custa submeter todos os dias a uma espera para tomar um banho, para comer, porque tudo isso é ténue e compensado, se comparado com tantos sinais que Deus me dá ao longo do caminho. Por fim, o quanto é indescritível o que sinto quando chego aos pés da Mãe. É o culminar duma caminhada espiritual e duma entrega sentida, profunda e pura. Digo-lhes também o que trago. Trago o dever de testemunhar tudo o que vivi, o dever de dar e partilhar, de estar onde Deus quer que eu esteja, de fazer o que Deus quer que eu faça. Trago a vontade, a disponibilidade e a certeza que Jesus está vivo em mim e que o sigo, ainda que persistam os olhares de descrença, de hostilidade…e ainda que, embora altas vozes se levantem, a voz de Deus ouço-a sempre com mais decibéis e é essa, a que retenho e que quero escutar.
Tenho o dever de como cristã, anunciar a palavra de Deus, de fazer a minha parte confiando que alguém me há-de ouvir ou ler. Somos todos filhos de Deus e todos sem excepção, somos chamados a fazer algo em prol de...
Não será esta uma missão de todos nós? Será fraqueza? Se sim, então direi que quero ser fraca, porque é nessa fraqueza que busco a minha força, para levar por diante o caminho que Deus me escolheu.
Finalizo com uma frase que o João, um grande amigo, peregrino e companheiro, levou com ele este ano:
-"Eu sigo Jesus. E tu?”
Dulce Gomes
O João,(com a sua pá)parte de Grândola e junto com a Lídia (nossa vassourinha) têm a missão de ir na cauda do grupo para que ninguém fique para trás. Bem hajam.
(Foto cedida pela Maria João, uma das nossas guias. Obrigado.)