Há medida que o tempo passa por nós, acumulamos vivências inesquecíveis que alguns degraus mais atrás nos fizeram crescer de tal forma, que as carregamos para sempre num cantinho especial.
Não sei precisar exactamente em que ano da minha vida se passou esta história, mas terá sido entre os meus 8/9 anos. Até tarde acreditei que era o menino Jesus que nos trazia os presentes e assim a cada natal crescia em mim a esperança, de que o Menino Jesus me presenteasse com aquilo que sabia ser impossível que os meus pais me dessem. Aproveitando essa oportunidade, todos os anos renovava os mesmos pedidos com veemência: uma boneca, ou um brinquedo mais apetecido que via nas mãos das amigas, sem ousar pedir uma bicicleta embora bem lá no fundo acalentasse essa esperança. Ao chegar o dia 24 de Dezembro repetíamos cuidadosamente a mesma rotina: pegávamos num sapatinho e posicionávamo-los todos em fila que nem montra de sapataria; o meu ficava sempre num lugarzinho especial por ser o mais pequeno.
Ia para a cama só quando era vencida pelo sono e pela manhã a ansiedade batia cá dentro como um despertador.Erguia-me num pulo, acordava as minhas irmãs e corríamos até à cozinha. A decepção era sempre igual: no sapatinho tínhamos sempre o chocolate que reconhecíamos ter sido dado pela mercearia onde nos abastecíamos, ou aquele tecido ofertado e guardado pela minha mãe para posteriormente nos fazer alguma roupa. Depois de refeita, esperava resignada o próximo natal.
Mas houve um natal diferente. Num ano tal como nos outros, também deixei o sapatinho à chaminé mas com uma esperança redobrada. A minha irmã Isabel com apenas 14 anos havia começado a trabalhar e depositou em mim uma alegria e esperança de que naquele natal o Menino Jesus iria de certeza passar à nossa casa. Essa noite de natal foi a mais longa de sempre. O sono foi entrecortado por insónias que deixavam em alerta todos os meus sentidos. Eu esperava a vinda do Menino Jesus. Numa dessas insónias ouvi passos, seguidos do resmalhar das prendas e o meu coração saltou de alegria: O menino Jesus estava ali, deixando algo nos nossos sapatinhos. Pregada à cama esperei a custo pela manhã. Mal raiou o dia, ainda cambaleante corri até à chaminé e os meus olhos arregalaram de assombro: os sapatinhos estavam tapados de prendas com lacinhos.
Claro que não recebi a bicicleta, mas depressa a esqueci perante a visão dos nossos sapatinhos tão recheados. Naquele ano, a minha mana Isabel foi o “menino Jesus” do nosso natal.
Hoje recordo esta passagem com um sorriso e com muita gratidão pelo gesto de amor tão significante da minha irmã. Ela soube juntar os escudos e abdicar deles para me proporcionar um natal inesquecível.
Porém, há muito tempo que agradeço ao Menino Jesus os nossos natais. Não tínhamos prendas, nem televisão, nem jogos. A nossa casa era pequena, bastante simples e humilde e para nos alegrar, apenas uma telefonia que tocava na noite de natal até bem tarde ao compasso do garfo que batia na frigideira enquanto o meu pai fritava os pastéis. Pelo meio ficavam os passos de dança pavoneados do meu pai, que se dividia por todas as mulheres da casa e no final fazíamos a “adiafa”: um chazinho com os fritos e pastéis ainda quentinhos e polvilhados de açucar e canela.
Afinal o Menino Jesus esteve sempre presente nos nossos natais, dando-nos o maior presente que uma família pode receber: união, paz, amor e alegria.
Porém, há muito tempo que agradeço ao Menino Jesus os nossos natais. Não tínhamos prendas, nem televisão, nem jogos. A nossa casa era pequena, bastante simples e humilde e para nos alegrar, apenas uma telefonia que tocava na noite de natal até bem tarde ao compasso do garfo que batia na frigideira enquanto o meu pai fritava os pastéis. Pelo meio ficavam os passos de dança pavoneados do meu pai, que se dividia por todas as mulheres da casa e no final fazíamos a “adiafa”: um chazinho com os fritos e pastéis ainda quentinhos e polvilhados de açucar e canela.
Afinal o Menino Jesus esteve sempre presente nos nossos natais, dando-nos o maior presente que uma família pode receber: união, paz, amor e alegria.
Só para concluir: Aos 20 anos, já casada, o meu marido pegou em peças velhas e formou uma bonita bicicleta azul que de tão pesada me venceu de cansaço logo à primeira, mas que me fez muito feliz.
Dulce Gomes
Dulce Gomes












