UM TESOURO
Há gestos carregados de tanto
significado que nem sei como os qualificar…
Regressei a casa (depois de mais uma
tarde de voluntariado) com um “tesouro” dentro dum saco de plástico…
Ela está na década dos oitenta e de há
um tempo para cá sente-se atraiçoada pela doença que aos poucos lhe vai
roubando o discernimento. Talvez daí, aproveitar um dos rasgos de luz que a
vida ainda lhe proporciona para com serenidade se despojar do espólio que foi
juntando ao longo da vida.
Escolheu-me para guardar estes
pedacinhos de si, que imagino, tanto lhe custou a desprender. Bem sabemos o
quanto são importantes as nossas coisas, ainda que para os outros sejam apenas
quinquilharias sem valor.
Surpreendida com as suas palavras de
amizade e confiança, acabámos num abraço emocionado enquanto agarrei nas asas
do seu saquinho de plástico e não mais o larguei, dizendo conforme pude que
iria guardar tudo com muita amizade.
Pelo caminho vinha imaginando o que
estaria eu carregando…vinha também pedindo a Deus que eu soubesse merecer esta
doação tão importante para ela, e que passou a ser importante para mim…
À chegada abri o saco e espalhei com
curiosidade todo o seu conteúdo.
À frente dos meus olhos ficaram livros
de cânticos; postais pessoais; pensamentos e orações; apontamentos; e muito
mais coisas por descobrir.
Fiquei emocionada...
Sei que vou consultar muitas vezes esta
“enciclopédia” de vida como uma lição a reter; Sei que não mais irei esquecer o
seu gesto; sei que os nossos caminhos ficarão sempre ligados por Deus.
E no meu coração guardarei para sempre
uma frase sua:
"Dulcinha um dia ainda nos
encontramos lá e damos um abraço como este."
Querida Isabel obrigada pelas suas
palavras de amizade e pelo seu gesto de coragem.
Sim, porque despojar-se do seu
“tesouro” foi um acto de coragem.
Obrigada amiga
Dulce Gomes.